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Quarto de Despejo: diário de uma favelada.

Não é de hoje que sabemos que a esquerda possui fissura em se apropriar dos socialmente frágeis pra endossar o discurso de que o mundo precisa dela, mesmo a História tendo dado (muitas) provas de que não precisa. Movida por um “senso” de caridade envolvente e emocionante, consegue implantar suas pautas em lutas que não são suas, como por exemplo, daqueles que não têm o que comer, contrastando, por exemplo, com as notícias do maior ditador ainda vivo, Nicolás Maduro, se deleitando em um banquete preparado por ninguém menos do que Salt Bae enquanto seu próprio povo, massacrando por um regime de esquerda, morre à míngua. Como a esquerda ousa se apossar das dores alheias? Com cinismo e adestramento. Sim. Adestramento. Sob o seu discurso de “justiça social”, a esquerda consegue arrebanhar milhares de desesperados e se apropriar de falas que ela sequer vivencia. Um exemplo latente disso é a romantização da favela, o que ao meu ver, é uma tentativa de adestramento do pobre, uma mentira inventada pra que o mais pobre se reconheça como sendo exclusivamente um favelado, que morar ali é bom, se manter pobre é bom porque sempre haverá quem lute por ele. Balela. Do alto de suas salinhas decoradas com mandalas, os intelectuais de esquerda mal sabem que o sentimento de um favelado é o de revolta e o que ele mais deseja é sair daquele lugar.

Hoje falarei de uma mulher que, por sorte do destino conseguiu trazer a realidade da favela para a Literatura: Carolina Maria de Jesus, mulher negra, catadora de lixo e miserável, autora do excelente Quarto de Despejo, escrito em forma de diário, onde ela relata suas aflições com a vida que odiava: as brigas entre vizinhos, o mau comportamento e a falta de pudor dos adultos, o descuido com as crianças na favela de Canindé, zona norte paulista, onde Carolina e os filhos viviam. Em diversos trechos do livro, ela relata seu repúdio pela convivência com alcoólatras, brigões e libertinos, encontrando na escrita o refúgio de sua condição. Em trecho de seu livro-diário ela relata: “O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.” Em outro trecho, Carolina, despretensiosamente, quebra a narrativa da esquerda ao afirmar que “a única coisa que não existe na favela é solidariedade”. Ora, só há um lugar onde o dinheiro é o de menos: onde ele sobra. E a vida na favela, se é que se pode chamar de vida, é um convite à sobrevivência daqueles que não caíram nas tentações do tráfico de drogas.

O relato cru de Carolina vai totalmente de encontro à falácia esquerdista de que a favela é um ambiente salubre e por sorte dela (e nossa), seus escritos caíram nas mãos de Audálio Dantas de uma forma inusitada: em meio a uma reportagem na favela de Canindé, Carolina fora flagrada ameaçando colocar o nome de seus vizinhos no livro que ela estava escrevendo, o que chamou a atenção do jornalista, que então resolveu publicar os escritos de Carolina, que acabaram traduzidos para mais de 40 países e virando uma das maiores obras realistas do Brasil, sendo inclusive publicado com todos os erros de escrita da autora. É impossível não se emocionar com Carolina Maria de Jesus, cuja vida é marcada pela perseguição de uma inimiga invisível: a fome. E quem melhor para falar sobre ela do que quem a viveu? Quarto de Despejo é uma obra que deveria ser lida por todo brasileiro que por algum momento pensa em poetizar a vida do favelado, que não é nem de longe aquilo que é visto na TV.  Não se enganem, essa romantização exarcebada da pobreza é mera tentativa de colocar o pobre debaixo das asas de um assistencialismo fajuto.

Escrito por Larissa Bastos

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